Entre Sombras e Silêncios

 Ela não deveria estar ali.

E ele… muito menos.

O relógio marcava quase meia-noite quando a porta do escritório rangeu suavemente. As luzes estavam apagadas, exceto por uma lâmpada fraca sobre a mesa, que lançava sombras longas nas paredes. O som do salto dela ecoou no chão frio — um som que não pertencia àquela hora.

Ele ergueu os olhos, surpreso.
— Achei que já tivesse ido embora — disse, com a voz rouca de cansaço e algo mais.

Ela deu um leve sorriso.
— Esqueci algo. Ou talvez tenha vindo buscar outra coisa.

O ar entre eles mudou. Denso. Quase palpável.
Ela se aproximou lentamente, o perfume deixando um rastro quente no ar. Ele observava cada passo como quem observa o perigo — e ainda assim, sem a menor vontade de se proteger.

— Você sabe que isso é errado — murmurou ele, sem se mover.
— Justamente por isso você não consegue me mandar embora — respondeu ela, parando tão perto que ele pôde sentir o calor da respiração dela na pele.

O silêncio que se seguiu foi um campo de batalha. Nenhum dos dois ousava dar o primeiro passo, mas os corpos falavam a língua antiga do desejo — aquela que ignora regras, cargos, anéis e promessas.

Ela o olhou nos olhos, demoradamente, antes de dizer:
— Se eu der mais um passo… nada volta a ser o mesmo.

Ele fechou os olhos por um instante. O som da respiração dela o desarmava, o fazia esquecer o peso de tudo que seria destruído depois.

Quando abriu os olhos, ela ainda estava ali.
Tão perto.
Tão errada.
Tão inevitável.

E foi nesse espaço entre o “não posso” e o “já é tarde demais” que o mundo pareceu parar.
As sombras na parede se misturaram.
O relógio seguiu marcando o tempo — mas ali dentro, ele já não existia.

Continua...

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