O Homem do Corredor
Ela trancou a porta atrás de si e suspirou fundo.
Um dia exaustivo, longo demais… e ainda assim, ao atravessar o corredor escuro até o quarto, sentiu aquela sensação estranha.
Um arrepio.
Uma presença.
Um déjà vu quase indecente.
As luzes baixas do apartamento pareciam observá-la.
Cada passo ecoava como se ela não estivesse sozinha.
Como se alguém soubesse exatamente onde ela estava, o ritmo da respiração, o modo como os ombros dela caíam, cansados — vulneráveis.
Ao chegar no quarto, parou.
A porta estava entreaberta.
Mas ela lembrava nitidamente de tê-la fechado.
Um frio correu pela espinha.
Medo?
Não exatamente.
Era algo mais profundo, mais quente, mais perigoso.
Ela empurrou a porta com cuidado.
O quarto estava escuro, mas havia uma sombra sentada na poltrona, imóvel, apenas silhueta e silêncio.
O ar ficou denso.
Pesado.
Quente demais para ser medo.
Ela não acendeu a luz.
Parte por receio…
Parte por desejo.
— Você… não devia estar aqui. — ela disse, a voz falhando por um instante.
Silêncio.
Mas não um silêncio vazio.
Era o tipo de silêncio que observa, que mede, que avalia.
O tipo que precede algo que não devia acontecer.
A sombra levantou.
E cada passo dele a fez recuar um pouco, até as costas tocarem a parede.
O coração dela batia rápido demais.
Ela não sabia se devia gritar, fugir…
Ou ficar.
A respiração dele roçou sua pele antes mesmo de o corpo chegar perto.
Ele parou tão próximo que ela sentiu o calor, o cheiro… a intenção.
— Você trancou a porta achando que isso ia me impedir? — ele murmurou, grave, baixa, perigoso.
A voz dele fez seu estômago girar, seu corpo inteiro reagir sem sua permissão.
Ela virou o rosto de leve, evitando o olhar — ou tentando se proteger dele.
Mas ele levantou a mão e segurou seu queixo com firmeza.
Não machucou.
Mas deixou claro que ela não iria fugir.
O gesto tinha algo de errado.
Algo que ela sabia que deveria repelir.
Mas não o fez.
Ele aproximou o rosto.
Ela pôde sentir a boca dele a um sopro da sua, quente, cheia de uma ameaça deliciosa.
— Você está tremendo. — ele constatou, quase satisfeito.
Ela tentou responder, mas a voz não saiu.
O coração revoltado batia tão alto que ela tinha certeza de que ele podia ouvir.
A mão dele desceu devagar — um toque firme na cintura, guiando, controlando, trazendo-a para perto demais.
O tipo de proximidade que tornava impossível saber onde terminava o medo… e começava o desejo.
Ela pressionou as mãos contra o peito dele, querendo afastá-lo —
mas não afastou.
Só deixou ali, sentindo o calor da camisa, o ritmo da respiração dele contra os dedos.
Ele sorriu contra a pele dela, um sorriso que ela sentiu muito mais do que viu.
Ela fechou os olhos.
E o mundo inteiro pareceu tremer com aquele silêncio.
O ar ficou carregado, espesso, quase insuportável.
Ele manteve o corpo colado ao dela, a mão firme na cintura, a respiração quente ecoando no pescoço dela —
como se fosse atravessá-la.
Foi só então que ela abriu os olhos e encarou os dele.
Não havia medo ali.
Não havia dúvida.
Só havia o mesmo fogo que queimava dentro dela.
E o mais proibido de tudo foi quando ela respondeu, com a voz finalmente encontrada:
— Continue.
Ele sorriu, aquele sorriso que ela conhecia bem — perigoso, voraz, absolutamente consciente do poder que tinha naquele instante.
A tensão se dissolveu.
O perigo virou jogo.
O medo se transformou em desejo puro, intenso, conhecido.
Porque aquilo —
essa invasão, essa sombra no quarto, essa encenação proibida —
não era um acidente.
Era o ritual deles.
O segredo mais íntimo.
A fantasia cuidadosamente planejada… que só se revelava quando ele perguntava aquela última frase.
E agora, com o coração acelerado e o corpo colado ao dele, ela sabia exatamente:
O jogo tinha acabado de começar.
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